Showing posts with label artigo de opinião. Show all posts
Showing posts with label artigo de opinião. Show all posts

Monday, 25 October 2010

Enquanto você se diverte


Como vou tratar, neste artigo, do perigo do uso e propagação de um recente chavão em ano eleitoral, permita-me iniciá-lo com um conselho e outro clichê: se você for um otimista compulsivo e crédulo – quase a alma de qualquer personagem da Disney, com exceção dos que morrem no penhasco – aconselho abandonar este artigo, mas “se conselho fosse bom não se dava, se vendia”. Eu gostaria de vender vários para ganhar dinheiro e buscar a felicidade plena (ou quase) pela qualidade de vida, ao invés de virar um conformista como todo baiano que teima em repetir a frase “A gente se f*** mas se diverte”.

Leia mais (Read more) >>

Thursday, 9 September 2010

Águas de Março são imunes ao Aquecimento Global

 
Ontem, quarta-feira (08), assisti um programa da TV Cultura chamado Metrópolis. Foi bom. Exibiram uma matéria sobre a cantora de jazz norte-americana Stacey Kent, falando sobre o lançamento do álbum Raconte-Moi.... Numa entrevista informal, feita inteiramente em português, Kent se assumiu amante desta língua e, obviamente, da nossa música. Contudo, me faço a mesma pergunta do artigo  de Barbara Heckler ("É o inverno que acaba, é a neve que derrete") para a revista Bravo! de setembro de 2010, sobre a mesma cantora e sua versão em francês de Águas de Março, intitulada "Les Eaux de Mars": "Por que as músicas brasileiras escolhidas pelos versionistas são sempre as mesmas e têm pelo menos 40 anos de idade?"

Assim como Heckler, eu não me proponho a responder essa pergunta totalmente, nem parcialmente, apenas provocar uma possibilidade de resposta no leitor. Em seu artigo, ela apenas comenta esse fenômeno, mas não pareceu achar nenhum tipo de dado conclusivo. Fala de algumas versões de canções populares (popularescas) lá da Idade da Palheta Lascada de Tom Jobim (Bossa Nova, etc), pontuando antes com Carmem Miranda e Zé Carioca e todos os seus enfeites, penduricalhos e lantejoulas de Brazil e Saludo Amigos! respectivamente. A pergunta ficou suspensa até o fim e eu fiquei inquieto.

Por que isso? Por que ser sempre tão unidimensional com tudo? Cadê aquele ceticismo maroto dos bons tempos? Cadê o lado cômico-Schopenhauer de encarar os assuntos? Desconfie. A Bossa Nova passou por aqui como um tufão, isso é inegável - eu teria dito furacão, mas seria exageradamente forte e recuar para "brisa", por causa da voz sussurrante de João Gilberto, seria ofensivo aos fans. Mas depois, os indiozinhos aqui só viveram a admirar seu rastro e criar uma entidade toda-poderosa; por acaso ela nos castigará se tentarmos forçar aos outros países nossos próprios e mais novos enlatados culturais (musicais)? Quer dizer, o Brasil tem estado até expansionista ultimamente - também, com tanto brasileiro no exterior... Enfim, expansionista mesmo, porque quem ainda acha que o Brasil é o pobre garotinho negro e frágil, sofrendo bullying por parte do malvado imperialista Estados Unidos, deve procurar um psicólogo e tomar várias doses de jornais ao dia.

Ainda assim, o Brasil só tenta se afirmar pela Bossa Nova e tais ícones de uma eterna "glória do passado". Sempre vivendo dessas glórias. As Águas de Março nem ouviram falar do El Niño, mas a versão francesa de Georges Moustaki para Kent, Les Eaux de Mars, já fala de derretimento da neve. Eu assinei a Bravo! recentemente pois, há um tempo, eu a leio para descobrir o que existe de novo aqui, culturalmente. É maravilhoso que pelo menos em algum canto só se fale dessas glórias em ocasiões comemorativas. Heckler fala inclusive da "consagração internacional" de certas canções. Ora, esses jovens músicos (músicos, eu disse!) brasileiros aí facilmente se consagrariam nesse nível se quisessem. Não porque são brasileiros, mas porque paixão por música nasce em qualquer lugar e um talento bem polido leva naturalmente à consagração mundial, basta investir. Agora, não dá para investir em nada enquanto ficarmos choramingando os louros de Tonzinho, de Ary Barroso, Caetano, etc, etc, etc. Cristo, mais parecemos cachorros com um osso na boca!

Não quero dizer que os "clássicos" devem ser jogados no lixo. Jamais. Entretanto, é preciso reconhecer a diferença entre apreço saudável e saudosismo psicopata. Reconhecer a importância histórica ou comemorar datas e eventos memoráveis deveria ser algo esporádico mesmo, sobretudo uma estrutura basilar para o suporte de toda nossa evolução futura. Por que não se comemora o "Dia do Polegar Opositor"? Porque há coisas mais essenciais, já percorremos um longo caminho desde então e temos um futuro adiante.

"Por que as músicas brasileiras escolhidas pelos versionistas são sempre as mesmas e têm pelo menos 40 anos de idade?"? Porque, meus caros, o saudosismo acomete infinitamente mais sujeitos aqui que a Febre Mediterrânea Familiar e causa mais danos. Porque aqui só se encoraja continuar bajulando o pretérito. E pior fica no nível nacional: reparem que em todo fim de festa sempre tocam um sambinha lamurioso, todos os sucessos de Legião Urbana, blablabla, Balão Mágico, blerg! Graças a todos os deuses de verdade (não a Bossa Nova), inventaram MP3 e fones de ouvido, são meu antídoto para esse lambe-lambe de lágrimas. Querem cultuar a Bossa Nova e essas coisas? Evoluam daí, misturem mais, ousem mais, dêem mais chances aos novos talentos. Por favor, dêem aos gringos e a vocês mesmos uma chance de perceberem as várias facetas das identidades culturais, esqueçam de Saludo Amigos! e da Garota de Ipanema porque nem Botox segura mais aquela bunda, deixem essas nádegas musicadas descansarem! E mais importante: colaborem com os gringos, dêem a eles um novo repertório para suas versões.

Foto: Capa do novo álbum de Stacey Kent, "Raconte-moi...". Crédito: TheHindu.com
Leia mais (Read more) >>

Tuesday, 23 September 2008

O Poder Idiótico

Por Caloan Walker

“‘Cada um no seu quadrado, cada um no seu quadrado’, é isso, meus queridos alunos, o que aquele filósofo grego muito doido quis dizer e é essa a base para a nossa filosofia moderna”. Eis que reverbera o grande ensinamento da atual sociedade, palavras proferidas por um professor que personifica momentaneamente toda a sabedoria de uma sociedade idiocrática, provavelmente em um futuro próximo, da qual o filho do leitor terá o privilégio de participar.
A Idiocracia já é uma realidade em uma certa parte da sociedade ocidental. Ela tem fundamentos lindíssimos, inabaláveis, ela seduz e vicia as mentes daqueles que só se preocupam com o mínimo de tudo e que tomam pragmatismo por preguiça estruturada, a preguiça de sair da inércia confortável da fórmula sofá-TV ordinária.
O primeiro – e talvez único – fundamento real da Idiocracia é a ilusória sensação de liberdade trazida pelos principais meios de comunicação. Numa estrutura neo-capitalista é ensinado que o padrão deste lado do mundo é o melhor pelas escolhas proporcionadas. E é instigando aquele sentimento de “eu assisto o que eu quiser e o pobrema (sic) é meu” que se alimenta o regime idiocrático. Todos têm o direito de ver o que quiser e querer o que quiser – exceto quando esses direitos referem-se a condições básicas de vida, esses são chatos e políticos e acabam com a diversão, e por Deus, ninguém jamais iria querer isso.
E diversão é a palavra-chave nisso tudo. Esse “tsunami idiotizante” que assolou a geração de jovens a qual então julgavam não politizada e compostas por rebeldes sem causa, essa adoração ao tosco, ao bizarro vazio, teve como cláusula pétrea a diversão.
Dos EUA importamos o Jackass, programa em que um ser com admirável desprezo pelos limites do ridículo realizava experimentos nele mesmo e em alguns de seus amigos. “Experimentos científicos?” questiona o leitor que ainda pode ler e assimilar informações. Óbvio que não, é tudo pela risada. Vários adolescentes que queriam impressionar o resto do bando se empenhavam em aprender cada truque, muitos foram feridos e alguns mortos, mas morte é assunto sério e desfoca o aspecto principal deste texto. Além disso, enquanto houver um belo chute no saco a cada fim de semana, haverá gargalhadas banhando a dor de um sujeito que poderá nunca mais ter filhos.
Alguns podem até questionar que essa nova epidemia não é um mal completo, afinal nunca se viu tantos anões, travestis, gordinhas, etc., aparecerem na TV para assegurar a dose diária de risos sádicos do telespectador. Afinal, tem coisa mais engraçada que um anãozinho dançando qualquer coisa, especialmente sobre um quadrado? Essas “minorias” serão os coringas daqui para frente, afinal suas formas não se encaixam nos moldes sensuais propagados nos nossos vestíbulos invisíveis.
Sensualidade e erotização são a mesma coisa. Erotizem tudo, desde as crianças aos idosos. Tudo tem que ser e será vendido. Tudo isso é parte do pacote. Há agora cerca de 18 anos desde que o erótico era velado nas músicas, como no pagode. Não, oh não, agora é tudo melhor, tudo mais mastigado e escancarado para que não se perca tempo desvendando metáforas, analogias. Agora a lei é que se o nome da moça for Marieta, imediatamente ponha a mão nas genitálias da mesma.
De agora em diante, pense duas vezes antes de colocar algum nome na sua filha cuja terminação seja “eta” ou “ota”. E como a fascinação brasileira por nádegas é declarada, tome cuidado se pretende colocar o nome da sua filha Marilu, ou ela poderá nunca mais defecar na vida com tantas mãos atrás. Talvez considerem chamá-la de Raimunda para suavizar os danos.
Por outro lado, os pais da “já tão nova e já ninfeta” Raimunda poderiam ficar desprocupados caso esta honre a rima do nome, há sempre uma vaga para moças apetitosas em reality shows e propagandas de cerveja.
“Ah, mas o público-alvo dos fabricantes de cerveja é o homem, tem que ter mulheres mostrando o útero nas propagandas”, ecoa o argumento do fulano – ou fulana – esperto, “e os homens respondem mais a essa linguagem, é a linguagem do povão”.
De fato, ninguém venderia cerveja citando Platão, no entanto faz-se presente a partir deste ponto um outro mandamento idiossincrático do Novo Regime: o racionamento de neurônios. As pessoas ainda acreditam que o cérebro delas é como um disco rígido de computador ou um pen drive, com um limite de informações que podem caber lá, portanto adiciona-se à fórmula a “autofágica” discussão “faz-se assim porque o povão não tem educação” e “o povão não tem educação porque tudo se faz assim”.
Primus não virou febre com um jingle sensacional não-pornográfico? ANobel não está com uma propaganda muito bem-feita sem vulgaridade? O whisky Johnnie Walker não aparece sempre com uma publicidade perfeita? Tudo bem, a Primus pode não ter durado tanto nos comerciais, mas com certeza marcou uma época. E até o povão fica impressionado com as propagandas do Johnnie Walker, pergunte qual marca de whisky eles conhecem. Não se vê o Johnnie Walker tentando lançar a Marieta Walker para vender seu produto aos brasileiros.
A Idiocracia é real e busca suplantar qualquer império. Tem escudos blindados como a “liberdade de expressão”, a “variedade de escolhas” e o “racionamento de neurônios”. O que os futuros responsáveis pelos principais meios de comunicação podem fazer para dar um limite a ela ainda é algo incerto. A única saída para aqueles que almejam a salvação é sentar sua “Raimunda” e estudar até seu “Marilu” doer, buscar inovação e sair dos clichés, etc, antes que ela o pegue, caro leitor, e lhe dê um “créu” na velocidade de 250km/h.
Leia mais (Read more) >>

Books I want