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Friday, 11 September 2009

Ele...


"You got a reaction, didn't you?" (JW)

Eu tinha uma orquídea branca. Na verdade, eu não a tinha, ela acabou nascendo sabe-se lá como em uma mochila velha que deixara do lado de fora do quarto sob a janela. Coloquei a mochila naquele canto pois ela representava a possibilidade de viajar para longe, e como eu fiquei preso a estas terras ela também deveria ficar. Enfim: mudança nas estações, condições climáticas favoráveis, efeito estufa, blablabla - ela brotou ali.

Uma coisinha verde, frágil, aparentemente débil, como toda outra planta germinando aos poucos. Estranhamente floresceu no inverno, quando eu conheci o senhor Luiz Gasmar. Ele era novo aqui. Ou só quis aparecer daquele momento em diante. Ele contou-me que tornou-se botânico após a morte de uma rosa que ele cultivava com toda sua dedicação. Eu contei a ele sobre a minha orquídea branca.

A orquídea ficava mais bonita a cada minuto. Eu esperava que ela fosse morrer rápido, como todas as outras que já tive por perto. São frágeis demais. Requerem mais atenção que uma rosa. Resolvi mostrá-la ao Luiz Gasmar. Ele não ficou muito impressionado. Preferia as rosas. Perguntei se poderia ajudar-me a cuidar dela mesmo assim. Evasivamente ele dava um ou outro conselho, daqueles "de um e noventa e nove". Isso se eu pedisse com esmero.

Nesse ano o inverno se prolongou. Levei a orquídea até o Luizinho Gasmar, à noite, no fim do seu expediente. A temperatura caindo a cada passo meu. Ao encontrá-lo, estendi-lhe a orquídea. Ele parecia não entender minha mensagem, e a tantos graus desabando quase ao zero, ele decide molhá-la. Ele sabia que iria matá-la.

Deixo o lugar imediatamente, bastante confuso. Ele deveria saber o que faz, mas acabou decidindo ignorar a própria experiência. No dia seguinte, foi me procurar. O clima tenso paralizou a morte da orquídea, que já estava caída. Alguns pedaços jaziam ao seu redor, como um mosaico gótico. O Luizinho Gasmar reconheceu o erro que cometera. Decidiu ajudar-me a revitalizá-la. Pôs ela de pé. Fez alguns ajustes. Ficamos um par de dias cuidando dela.

Tive de retomar minha rotina. Luiz Gasmar me disse que a orquídea branca iria morrer, pois era um ciclo, e eu deveria entender isso. Cada vez que ele dizia isso naqueles dois dias, uma muda da orquídea se insinuava mais e mais próxima à sua matriz. No fim daquele episódio de nossas vidas, dei a muda da orquídea branca para o Luizinho Gasmar. Ele recusou de início, dizendo que já que a minha iria morrer logo, eu deveria ficar com a nova.

O Luizinho Gasmar conheceu muitas rosas, e muitas outras verá. A orquídea que lhe dei pode não ter impressionado o botânico, mas quem gosta das flores percebe a singularidade de uma espécie tão rara, oriunda de apenas um lugar. Ele não a jogará fora, sei disso porque me disse que não faria. Já quase matou uma, não mataria a outra.

Luizinho, meu caro Luizinho. Meu amigo Luiz. Meu belo Luizinho. Meu complicado Luiz. Meu caro amigo belo e complicado, Luizinho Gasmar, quero que saiba disto: a minha orquídea branca não morreu. Para não contrariar seu conhecimento botânico e a lógica da natureza, deixei ela escolher a morte. Mas não quis, foi resiliente. E viverá para sempre pois a pintei de azul.
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Wednesday, 26 August 2009

Ele


Demasiadamente difícil aprender a lidar com ele. Uma pessoa cujos aspectos vão desde um bonsai a um pássaro do porto. Poderia ter feito comparações bem melhores que esta, especialmente já que falo do único ser até agora que me fez pensar num relacionamento a dois, ou imaginar como poderia ser, ou ter sido, o amor em circunstâncias de maior maturidade. Mas no fim deste texto ficará claro por que melhores comparações são dispensáveis (para ele).

Acontece que ele é como um bonsai, pois a cada conversa com ele, há de se aparar certas sentenças e cortar assuntos inteiros, para que ele não se sinta em desconforto com o passar dos dias. Se eu insisto em certas coisas, ele induzirá a si mesmo a definhar-se, deixando-me o resto da noite e do dia seguinte a imaginar se morreu para sempre ou se há algum jeito de regar-lhe vida novamente.

Assim como um pássaro de porto, ele sabe os momentos estratégicos de pedir a mínima forma de afeto ao turista (eu) que o encara. Se o observo, fica numa tenaz indiferença. E me olha de volta como todo pássaro faz, sinalizando "Você nunca vai saber até que ponto pode se aproximar, pois decolo sem aviso. Enquanto eu tenho asas e vôo, você só tem suas mãos, e o melhor que pode fazer com elas é escrever".
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Thursday, 13 August 2009

Adeus


O café acabara de ser feito e ele já o ansiava. Precisava de sensações a todo instante para esquecer aquilo que ficava cada vez mais claro. Quando o chão entre a cama e o banheiro parava de riscar seus pés, quando a água quente parava de mordiscar seu corpo, quando a textura das roupas parava de alisar seus pêlos, aquele lembrete reverberava em sua mente como se vindo de fora.

Olha pela janela. Tenta ouvir o som dos pássaros no jardim. O vento se antecipa, castiga seu rosto e começa a gritar em seus ouvidos. Esses gritos são como aquele sermão da mãe que diz em consolo e vitória: "Eu te avisei". A música que acompanha o sofrimento: "Hallelujah", na versão de Regina Spektor.

Agora é tarde. Você sabe que falará com ele uma última vez. O remorso é a única força mantendo seus órgãos no lugar. Deveria tê-lo tratado melhor. Deveria ter conversado mais. Deveriam ter sido ainda mais amigos. Deveria ter preenchido todos aqueles momentos mínimos com perfeições livres de culpa. Ele já não diz uma palavra, pois também já previa tudo isso.
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