Monday, 21 December 2009

The flying beat


"Set me free
why don't you, babe
Get out of my life
why don't you, babe"
(Song: "You keep me hanging on")

You were nested inside my chest for as long as your instincts held you there. Then, suddenly, you flap your wings silently and declare you're no longer my captive. Off you went, frolicking around the neighbourhood, until someday you found a shiny thing in the water which made you swerve and dive down towards it.

It was a fish. But alas for you, since you never knew what it meant to feel hungry - being so used to be fed or at least offered food whenever -, you couldn't tell whether it was the kind you liked or not. Nevertheless, you bonded with its owner and days went by carrying that scent of friendship in the air. You were captivated by him. What good was that for you? You were hungry and that man wouldn't allow you to feed on that fish, nor would he forbid you. One day you wake up, they both move into somewhere else and your hunger is only sated by memories of what might have been.

You're still young, you thought, and after a while you go on a flight of two days to a land down under. You think you died and went to Heaven. It was all flawless. You make it your home for more than a couple of years but being the nonchalant artist you are, you leave off with a bang, telling yourself you are indeed too young to be settled forever in Heaven. You were actually scared witless.

On your way back, you find a lighthouse and your food now come in pairs. They're laid down for you nicely, but one half is always more appealing. Despite the great hospitality, you'd hate to see food rot and go to waste. You know you cannot live there, you can't bite the hands feeding you. Thus, you only return when summoned.

You stop for a moment to watch those who are like you. When you fail to provide for yourself, you become a rogue, or a scavenger. Either way you are never fully pleased, but you survive. Seasons went by you and you kept a secret from your friends. You were hungry again, all along, from the minute you saw him. But he was too hot and cold, you thought. What if you go veering down at full speed and something foils yet another attempt, yet another hope?

So you see the house become empty and the owner becomes more alluring. It's even more seductive than a fish, and seemingly warmer than any lighthouse. Your hunger is translated into feeble attractions no more, and the light doesn't come from the home, but from his core. It does shine through his clear brown eyes and his timid smile. Plus, you rejoice on the sound of his laughter. You made up your mind: if the opportunity presents itself, you will tell him your secret.

And so it did. You told him, you tried. You still seem to be welcomed there, though. Once again, friendship prevails. Three times you let love run freely through the arteries. And I'm here writing this letter to you, which will be used to wrap up your daily fish and chips, to remind you of retreating before you go bending over backwards for someone else again. I've followed you time and time again, you bloody, stubborn, stupid thing. It won't be long now, love will come hunting you fiercer than before. But be more rational.
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Friday, 11 September 2009

Ele...


"You got a reaction, didn't you?" (JW)

Eu tinha uma orquídea branca. Na verdade, eu não a tinha, ela acabou nascendo sabe-se lá como em uma mochila velha que deixara do lado de fora do quarto sob a janela. Coloquei a mochila naquele canto pois ela representava a possibilidade de viajar para longe, e como eu fiquei preso a estas terras ela também deveria ficar. Enfim: mudança nas estações, condições climáticas favoráveis, efeito estufa, blablabla - ela brotou ali.

Uma coisinha verde, frágil, aparentemente débil, como toda outra planta germinando aos poucos. Estranhamente floresceu no inverno, quando eu conheci o senhor Luiz Gasmar. Ele era novo aqui. Ou só quis aparecer daquele momento em diante. Ele contou-me que tornou-se botânico após a morte de uma rosa que ele cultivava com toda sua dedicação. Eu contei a ele sobre a minha orquídea branca.

A orquídea ficava mais bonita a cada minuto. Eu esperava que ela fosse morrer rápido, como todas as outras que já tive por perto. São frágeis demais. Requerem mais atenção que uma rosa. Resolvi mostrá-la ao Luiz Gasmar. Ele não ficou muito impressionado. Preferia as rosas. Perguntei se poderia ajudar-me a cuidar dela mesmo assim. Evasivamente ele dava um ou outro conselho, daqueles "de um e noventa e nove". Isso se eu pedisse com esmero.

Nesse ano o inverno se prolongou. Levei a orquídea até o Luizinho Gasmar, à noite, no fim do seu expediente. A temperatura caindo a cada passo meu. Ao encontrá-lo, estendi-lhe a orquídea. Ele parecia não entender minha mensagem, e a tantos graus desabando quase ao zero, ele decide molhá-la. Ele sabia que iria matá-la.

Deixo o lugar imediatamente, bastante confuso. Ele deveria saber o que faz, mas acabou decidindo ignorar a própria experiência. No dia seguinte, foi me procurar. O clima tenso paralizou a morte da orquídea, que já estava caída. Alguns pedaços jaziam ao seu redor, como um mosaico gótico. O Luizinho Gasmar reconheceu o erro que cometera. Decidiu ajudar-me a revitalizá-la. Pôs ela de pé. Fez alguns ajustes. Ficamos um par de dias cuidando dela.

Tive de retomar minha rotina. Luiz Gasmar me disse que a orquídea branca iria morrer, pois era um ciclo, e eu deveria entender isso. Cada vez que ele dizia isso naqueles dois dias, uma muda da orquídea se insinuava mais e mais próxima à sua matriz. No fim daquele episódio de nossas vidas, dei a muda da orquídea branca para o Luizinho Gasmar. Ele recusou de início, dizendo que já que a minha iria morrer logo, eu deveria ficar com a nova.

O Luizinho Gasmar conheceu muitas rosas, e muitas outras verá. A orquídea que lhe dei pode não ter impressionado o botânico, mas quem gosta das flores percebe a singularidade de uma espécie tão rara, oriunda de apenas um lugar. Ele não a jogará fora, sei disso porque me disse que não faria. Já quase matou uma, não mataria a outra.

Luizinho, meu caro Luizinho. Meu amigo Luiz. Meu belo Luizinho. Meu complicado Luiz. Meu caro amigo belo e complicado, Luizinho Gasmar, quero que saiba disto: a minha orquídea branca não morreu. Para não contrariar seu conhecimento botânico e a lógica da natureza, deixei ela escolher a morte. Mas não quis, foi resiliente. E viverá para sempre pois a pintei de azul.
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Wednesday, 26 August 2009

Ele


Demasiadamente difícil aprender a lidar com ele. Uma pessoa cujos aspectos vão desde um bonsai a um pássaro do porto. Poderia ter feito comparações bem melhores que esta, especialmente já que falo do único ser até agora que me fez pensar num relacionamento a dois, ou imaginar como poderia ser, ou ter sido, o amor em circunstâncias de maior maturidade. Mas no fim deste texto ficará claro por que melhores comparações são dispensáveis (para ele).

Acontece que ele é como um bonsai, pois a cada conversa com ele, há de se aparar certas sentenças e cortar assuntos inteiros, para que ele não se sinta em desconforto com o passar dos dias. Se eu insisto em certas coisas, ele induzirá a si mesmo a definhar-se, deixando-me o resto da noite e do dia seguinte a imaginar se morreu para sempre ou se há algum jeito de regar-lhe vida novamente.

Assim como um pássaro de porto, ele sabe os momentos estratégicos de pedir a mínima forma de afeto ao turista (eu) que o encara. Se o observo, fica numa tenaz indiferença. E me olha de volta como todo pássaro faz, sinalizando "Você nunca vai saber até que ponto pode se aproximar, pois decolo sem aviso. Enquanto eu tenho asas e vôo, você só tem suas mãos, e o melhor que pode fazer com elas é escrever".
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Thursday, 13 August 2009

Adeus


O café acabara de ser feito e ele já o ansiava. Precisava de sensações a todo instante para esquecer aquilo que ficava cada vez mais claro. Quando o chão entre a cama e o banheiro parava de riscar seus pés, quando a água quente parava de mordiscar seu corpo, quando a textura das roupas parava de alisar seus pêlos, aquele lembrete reverberava em sua mente como se vindo de fora.

Olha pela janela. Tenta ouvir o som dos pássaros no jardim. O vento se antecipa, castiga seu rosto e começa a gritar em seus ouvidos. Esses gritos são como aquele sermão da mãe que diz em consolo e vitória: "Eu te avisei". A música que acompanha o sofrimento: "Hallelujah", na versão de Regina Spektor.

Agora é tarde. Você sabe que falará com ele uma última vez. O remorso é a única força mantendo seus órgãos no lugar. Deveria tê-lo tratado melhor. Deveria ter conversado mais. Deveriam ter sido ainda mais amigos. Deveria ter preenchido todos aqueles momentos mínimos com perfeições livres de culpa. Ele já não diz uma palavra, pois também já previa tudo isso.
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Monday, 10 August 2009

The Man Who Sold the World


O. W. Foto: whatdoiknow.typepad.com


Eu não diria que naquele momento eu apenas despertei, pois seria me apegar demais às antigas tradições da sociedade à qual pertencia; diria, no entanto, que conseguir manter o foco nos olhos após uma longa e boa conversa, vinho numa mão e lápis na outra, era uma sensação familiar. Aliás, ficar bêbado é uma Arte neste lugar, como tudo em realidade o é. Pelo menos é isso que vejo, é isso o que me diz aquele que você poderia chamar de "O Criador", pouco antes de se levantar da cama.

Ele tem me ensinado muito desde a minha chegada. Leva-se um certo tempo para compreender essa nova dimensão que experimento desde que morri - se é que algo tão perfeito pode ser entendido através desse termo lamurioso, que evoca tão-só a fatalidade de libertar-se de sua carcaça. Antes que se pense em tal insanidade, deixarei claro: isto aqui não é o Céu ou Paraíso, termos plantados pelo meu jocoso Guia em uma de suas obras que gerou tanta controvérsia no meu (agora) suposto lugar de origem.

Quando o leitor souber o final da História do seu planeta, a Terra, ficará angustiado por não parar de rir, pois aqui não há Tempo, fica-se livre de todas essas amarras sistemáticas e mundanas. Não, o melhor daqui é a liberdade. O próprio Autor dos humanos (como você os conhece) disse-me que Se divertiu muito, com certa perversidade, quando contou a Spielberg que tudo é tão livre ali que Ele poderia inclusive vender-lhe os direitos autorais da Sua obra, 75% OFF. Spielberg havia acabado de sair do Purgatório (como nós ironicamente chamamos aquele lugar), e enquanto esforçava-se para escrever um cheque lembrou-se que não se livrara do asqueroso Capitalismo Fundamentalista. Teve de retornar ao Estágio 01 do Treinamento de Adaptação. O diretor, que num acesso de humor rotulou-se um "has-been", disse que voltar para lá não era tão ruim, já que imaginava sempre e secretamente estar numa orgia na Área 51.

Tenho consciência de que qualquer religioso já teria excomungado este conto assim que terminasse o primeiro parágrafo, mas explicarei minha aparente arrogância. O Criador do qual falo não é a imagem onírica de Deus. Este nunca existiu. Refiro-me ao maravilhoso homem inventor de toda a saga do homo sapiens, por conseqüência o inventor de Deus.

Lembro-me de quando Ele me contou como se deu toda a História que me ensinaram na (agora) fictícia escola. Disse-me ter criado o mundo e o universo quando ainda era imaturo, começou num conto e acabou num romance. Imagina ter sido força do belíssimo ócio, não tem muita certeza, só Se recorda de tê-lo esboçado naquele estado de transe quando não nos submetemos ao sono e tampouco estamos acordados. Perguntei-lhe uma vez se não tinha receios de ser chamado de louco pela complexidade do seu sistema, eis que me é explicado o conceito de loucura deste lugar.

Aqui a Loucura é vista como um ato corajoso da mente, trata-se de se aventurar pelo desconhecido, como adentrar uma floresta à noite sabendo que logo virá a manhã para que seu progresso seja apreciado. É precisamente aquilo que justifica a nossa Inquietação natural. Numa realidade onde tudo é regido por ondas cerebrais, conexões psíquicas, nada seria mais lógico. O crime aqui é ser conformado, não há uma só alma sem traços da tal Inquietação. Nada é óbvio demais, o humor é o mais perfeito, não é preciso explicar piadas toda vez. Todos riem de piadas inteligentes, já que é esse o inevitável caminho de uma rica formação cultural.

Após deleitar-me com essas palavras doces, disse-Lhe sorrindo que achei meio cruel valer-se de privações inexistentes neste lugar e colocá-las na Terra, onde precisávamos de líderes sociais, pois o homo sapiens era demasiado bestial em seu âmago para alcançar o nível mental do homo ars. Todo artista era visto como louco no sentido doentio que a palavra ganhou, ninguém podia viver puramente do seu talento artístico, era tudo feito sob demanda, tudo sempre mirando o chão, nunca o infinito. Sorri por achar genial isso, agora que vivo num Socialismo que cultua o Individualismo dentro da Arte.

Depois de uma boa tarde juntos na rede, perguntei a Ele como julgara sua estadia no próprio mundo que criou. Respondeu com aquela famosa feição sarcástica Dele, eternizada em uma estátua, que não poderia achar mais engraçado ser condenado por uma das coisas que ele mais amava na vida e ser absolvido completamente por outra. Esta última se refere à sua Arte. Aquele sarcasmo me faz tão bem. Ele o usava constantemente, era fã da metalinguagem, por isso enquanto escrevia o conto da Terra, escreveu a Bíblia e outros compêndios dogmáticos, além de peças e novelas ironizando a vida na sociedade inglesa do século XIX. Enchi Seu copo de vinho. Ele me chamou de pseudo-patrício. Eu disse que amava esse lado Dele. Ele me disse que Se baseou em mim quando escreveu sobre Dorian Gray, só que quando me criou esqueceu de adicionar toda a beleza. Respondi que havia ficado satisfeito com o lapso, me ajudara a chegar lá e merecer ficar ao Seu lado.
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Thursday, 6 August 2009

Springtime for Kafka

O Processo contra o Lado de Fora




Certa manhã, ao despertar de sonhos intranqüilos, Franz Kafka encontrou-se em sua cama metamorfoseado num monstruoso... homossexual. Metamorfoseado não seria a palavra ideal, pois implicaria em transformação, o que indicaria alteração de um estado anterior do ser e isso seria definitivamente um exagero neste caso.

Eis o ocorrido: Franz Kafka teve uma epifania ao perceber somente então que a suposta cegueira paterna, com relação à sexualidade dos filhos, algum dia é curada espontaneamente. E naqueles tempos o Saramago não andava enlouquecendo-nos com suas verdades ácidas... Ah não. Mesmo que o fizesse, Hermann Kafka não perderia seu tempo lendo, afinal alguém tinha de cuidar dos negócios da família - e Hermann sabia que em casa não tinha outro homem para isso.

Desde que se meteu com a área do Direito, Franz Kafka - o qual a partir deste parágrafo será chamado de "K." - adquiriu a arrogância de achar que ao esconder-se atrás de pilhas e pilhas de processos, ele se veria livre do confronto diário com o pai e com aquele (metafórico) elefante purpurinado sentado à mesa para o jantar, rindo-se de tudo aquilo.

Ora, o pai de K. certamente ouvira, de uma forma ou de outra, de seus noivados com belíssimas donzelas. Nossa, quanto bom gosto esse meu filho tem! E compromisso?! Hah! O verdadeiro homem varonil aproveita a juventude, vira conquistador, deixando as moçoilas em casa a mendigar-lhes a atenção. Eu mesmo só casei porque não teve jeito. O filhão está no caminho certo. Ah, se ao menos a realidade refletisse a verdade...

Como ele faz isso? Que tipo de visão onipotente esse Hermann Kafka haveria de ter? Se me perguntassem, diria que não culpo K. pela sua angústia. Sua mãe acreditava em seu teatrinho, custava ao pai fazer um agradinho também? Afinal, K. nunca pedira para nascer, foi regurgitado por meios vagínicos neste mundo sem autorização! Mas que violação de Direitos Pré-Existenciais! Imagino como o mundo reagirá quando alguém finalmente resolver processar o pai tirano por isso.

Ah sim, os processos, a ejaculação da burocracia. E como K. adorava manuseá-los! Do seu (metafórico) Forte Militar formado por resmas jurídicas, K. imaginava acabar logo com tudo aquilo para curtir a night do seu século com os amigos. Pasmem, meu ex-colega (e flerte secreto) inclusive sonhava em virar uma traça, para poder devorar todos aqueles papéis. Na verdade, não importava qual inseto, desde que se alimentasse daquela terrível e enclausuradora celulose.

Sobretudo por reminiscências como essa eu senti sua falta naquela manhã. Deixei o trabalho e fui procurar meu frágil amigo. Tive fácil acesso ao seu quarto, uma vez que os pais de K. não questionariam um "Oficial de Coisas Jurídicas do Governo". K., atordoado com sua metamorfose, me pediu ajuda; fui pego pelo seu gaydar.

K. sabia que o juri popular foi acionado, alguém já o acusara. Mas quem? Precisava condenar esse difamador para ser absolvido. E eu iria ajudá-lo.



Continua...
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